Sean Penn foi indicado ao Oscar pelo papel de Harvey Milk no filme que tem o sobrenome do politico californiano assassinado no final dos anos 70.
Eh, ele morre no fim. Nao eh spoiler, eh Historia documentada, pelamor. Harvey Milk foi executado em seu escritorio na Prefeitura com uns par de tiros a queima roupa, alguns minutos depois do entao prefeito da cidade, George Moscone, sofrer o mesmo destino. Um chabu de proporcoes homericas. O sujeito que passou os dois foi outro oficial eleito, o city supervisor Dan White. Esse cara aqui:

Ele foi condenado apenas por homicidio culposo, como se tivesse matado por acidente. Isso apesar de ele ter assassinado o prefeito e outro supervisor a queima roupa, depois de entrar na Prefeitura por uma janela para evitar o detector de metais portando nao so uma arma carregada, mas tambem um bocado de municao extra. O elemento pegou soh 5 anos de isolamento carcerario e cometeu suicidio quando foi posto em liberdade.
Os motivos niguem sabe ate hoje. O catolico e jovem pai de familia e veterano de guerra que cometeu o crime tinha fama de guei enrustido, o que pode ser um motivo. Enquanto todos os seus colegas de prefeitura faziam historia - as mudancas capitaneadas pelo prefeito Moscone envolviam um monte de novos supervisores de diversas racas e culturas - White deu um jeito de enterrar a propria carreira com um discurso conservador e destoante. Pode ter sido vinganca, atentado politico encomendado ou uma combinacao das duas coisas. O que ninguem acreditou nem na epoca nem acredita hoje eh o que foi apresentado como defesa oficial: Dan White estava locao de Twinkies.
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Isso mesmo, Twinkies. Aqueles bolinhos doces recheados de creme. Deixaram ele locao o suficiente para balear dois colegas de trabalho tipassim do nada.
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Melhor dizendo, quase ninguem acreditou nessa historia na epoca. A defesa colou com o juri e Dan White nao foi processado por homicidio doloso. Tambem nunca recebeu tratamento psiquiatrico durante os 5 anos em que esteve na cadeia, o que provavelmente ele precisava mesmo ja que acabou se matando. Ate hoje em meios juridicos americanos o termo Twinkie Defense eh usado quando um acusado culpa a influencia de substancias normalmente tidas como relativamente inocuas (tipo cafe ou chocolate) pelos seus atos.
O filme eh bom, meio Malcolm X. Trata-se basicamente de uma refilmagem dramatizada do documentario abaixo, que foi lancado em 1984. Da uma olhada e veja se o Sean Penn nao ta igualzinho …
The Times of Harvey Milk

Elizabeth Bishop perdeu um continente. Mas ganhou um país muito mais divertido e o amor da sua vida.
Seguindo o post do Thiago sobre escritoras “mudernas”, resolvi falar um pouco sobre essa poetisa que arrebentou nos anos 50.
Desembarcar no porto de Santos no começo dos anos 50 (e rumar para o Rio de Janeiro) era um prato cheio para qualquer escritor. A bossa nova era esboçada e muito acontecia por essas bandas. Quem me dera ter 20 anos nessa época….

Ela morou no Brasil um tempão. E foi quando escreveu melhor, mesmo assim nunca se desligou das suas raízes norte-americanas. Sempre escreveu em inglês, porém suas obras foram traduzidas por diversos poetas brasileiros.
Elizabeth era super envolvida em movimentos de vanguarda, e acabou conhecendo a arquiteta Lota Macedo (que fez o aterro do Flamengo) e se apaixonou. Elas foram felizes por eternos 10 anos até que Lota suicidou-se.
Elizabeth morreu em 79, nos Estados Unidos, mas deixou muito por aqui. Muito que nem todos conhecem… Na faculdade de Letras em Santos, nunca alguém sequer tocou no nome dela. O que é um absurdo! Pq eu tinha literatura norte americana (e quer coisa mais bacana do que uma escritora que morava aqui!)…vai sentindo o drama…
Mas tudo bem, o que os professores pecam em falta o Google tem de sobra.
Um dos poemas mais conhecidos de Elizabeth é:
The art of losing isn’t hard to master;
so many things seem filled with the intent
to be lost that their loss is no disaster.
Lose something every day. Accept the fluster
of lost door keys, the hour badly spent.
The art of losing isn’t hard to master.
Then practice losing farther, losing faster:
places, and names, and where it was you meant
to travel. None of these will bring disaster.
I lost my mother’s watch. And look! my last, or
next-to-last, of three loved houses went.
The art of losing isn’t hard to master.
I lost two cities, lovely ones. And, vaster,
some realms I owned, two rivers, a continent.
I miss them, but it wasn’t a disaster.
—Even losing you (the joking voice, a gesture
I love) I shan’t have lied. It’s evident
the art of losing’s not too hard to master
though it may look like (Write it!) like disaster.
Tradução de Paulo Henriques Britto
“A arte de perder não é nenhum mistério;
Tantas coisas contêm em si o acidente
De perdê-las, que perder não é nada sério.
Perca um pouquinho a cada dia. Aceite, austero,
A chave perdida, a hora gasta bestamente.
A arte de perder não é nenhum mistério.
Depois perca mais rápido, com mais critério:
Lugares, nomes, a escala subseqüente
Da viagem não feita. Nada disso é sério.
Perdi o relógio de mamãe. Ah! E nem quero
Lembrar a perda de três casas excelentes.
A arte de perder não é nenhum mistério.
Perdi duas cidades lindas. E um império
Que era meu, dois rios, e mais um continente.
Tenho saudade deles. Mas não é nada sério.
– Mesmo perder você (a voz, o riso etéreo que eu amo) não muda nada. Pois é evidente
que a arte de perder não chega a ser mistério por muito que pareça (Escreve!) muito sério. “
Nascida na pacata Jaú, no interior de São Paulo, a moça aí embaixo foi uma das escritoras mais estáile do Brasil.
Eu por sinal nasci em Jaú, então perguntei em casa sobre a autora e poetisa. Segundo minhas fontes (mãe, a minha não a dela) Hilda Hilst era uma Almeida Prado, clã de fazendeiros. Em suma uma rica de novela, abastada como uma princesa texana. O mesmo extrato social que produziu Santos Dumont e que, bem, manda no país há alguns séculos.
Filha de um fazendeiro por herança e intelectual clinicamente esquizofrênico por vocação, Hilda Hilst cresceu em meio às artes e à loucura - o pai passou a maior parte da vida internado em um Arkham Asylum da vida, equanto Hilda era criada em Santos. Estudou nos melhores e mais caros colégios de São Paulo na época (Santa Marcelina e Mackenzie), morava nos Jardins e tinha governantas e mucamas.
Já que ela era rica vamos às fofocas: Hilda acabou virando a melhor amiga da escritora mais famosa Lígia Fagundes Telles, e por ser bonitinha, desbocada e talentosa, virou musa dos modernistas e afins (esse povo adorava uma musa). Sua vida intelectual e social era intensa, Vinícius de Morais e Carlos Drummond de Andrade foram os dois vidrados mais famosos. Também é ressaltado nas biografias que a poetisa teve uma fase Lindsay Lohan perseguindo estrelas de Hollywood em festas pela Europa, período em que pegou Dean Martin e levou toco de Marlon Brando.
E sua obra, comofas? Hilda Hilst escreveu poesias, prosa e peças de teatro com temas cabeludos para seu tempo - tipo vida desregrada, esquizofrenia, incesto, lesbianismo e fenômenos sobrenaturais. Escreveu por quase 50 anos, e quando já era tiazona e reclusa em sua mansão em Campinas, chamada Casa do Sol, começou a ser reconhecida e premiada pelo conjunto da obra.
Bibliografia de Hilda Hilst (Wikipedia)
Quem tem mais ou menos a minha idade (32) pode se lembrar da escritora por sua última e descaradamente pornográfica fase. Execrada por amigos da autora, essa fase literária é mais conhecida pelo romance O Caderno Rosa de Lory Lambi, estrelado por uma protagonista menor de idade, bem menor de idade mesmo. A coisa toda recebeu certa atenção na mídia porque bem, não é todo dia que uma velhinha quatrocentona publica pornografia infantil. Segundo a própria Hilda Hilst, seu objetivo era ficar mais famosa. Deu certo, Lory Lambi virou até monólogo teatral com as televisivas Bete Coelho na direção e Iara Abujamra como protagonista.
Aí ela morreu em 2004, tava velhinha e meio que parecendo o Bukowski fisicamente. Escapou de terminar no mesmo hospício onde seus pais acabaram morrendo e talvez tenha sido *a* escritora brasileira mais estilosa do século.

Biografia de Hilda Hilst no Releituras
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